Muita lavoura brasileira já foi sinônimo de safra incerta e de terra que cansava depressa. Pela ótica de Alfredo Moreira Filho, fundador e management do Grupo Valore+, a virada passa menos pela área plantada e mais pelo conhecimento aplicado ao solo, às sementes e ao manejo, o que a pesquisa agropecuária fez avançar de forma contínua ao longo das décadas e que hoje separa a roça que estaciona da que rende safra após safra.
Como a pesquisa chegou à porteira?
A pesquisa agropecuária mudou a produtividade ao responder a problemas concretos do produtor: solos ácidos e pobres, pragas, doenças e clima irregular. Instituições públicas e universidades passaram a testar variedades adaptadas, corrigir a acidez do solo e ajustar a época de plantio a cada região, e o resultado foi colher mais na mesma área, sem depender apenas de abrir terra nova.
O caso apresentado aqui é ilustrativo e serve para mostrar como o processo costuma se dar. Em um município do interior de Minas Gerais, Osvaldo, de 52 anos, pequeno produtor de milho e soja, casado e pai de dois filhos, via a produtividade da roça estacionada havia anos. A terra era a mesma, a semente era guardada de uma safra para outra, e o mato e as pragas cobravam seu preço. Quando passou a plantar uma variedade indicada para a região e a corrigir o solo com base em análise, a lavoura respondeu melhor, e ele passou a entender que o avanço vinha do conhecimento, e não de sorte com a chuva.
O que mudou no solo e nas sementes?
Duas frentes concentram boa parte do avanço: o melhoramento genético e o manejo do solo. O melhoramento genético é o trabalho de cruzar e selecionar plantas para que resistam a doenças, suportem a seca e rendam mais. Já o manejo do solo reúne práticas como a calagem, que é a aplicação de calcário para reduzir a acidez da terra, a adubação calculada pela análise e o plantio direto, sistema em que a palha da cultura anterior fica sobre o terreno, sem aração, para protegê-lo da erosão e conservar a umidade.
Em regiões tropicais, onde a chuva forte lava os nutrientes e o sol castiga a terra descoberta, essas práticas pesam muito. Na visão de Alfredo Moreira Filho, a produtividade vem da soma de escolhas técnicas bem feitas, e nenhuma semente melhorada rende o que promete em solo mal cuidado. O conjunto vale mais que cada peça isolada, como numa orquestra em que o melhor instrumento não salva uma execução desafinada.
Por que o conhecimento só vale quando chega ao produtor?
Uma descoberta de laboratório não aumenta a colheita de ninguém enquanto fica no papel. A assistência técnica e a extensão rural cumprem o papel de levar a recomendação até a propriedade, traduzida para a realidade de cada produtor, com a época certa de plantar, a dose adequada de adubo e o cuidado com as pragas. Sem esse elo, o avanço fica restrito a quem já tem acesso a informação.
No caso de Osvaldo, a mudança começou numa conversa com um agrônomo que visitou a região e explicou por que a análise de solo vinha antes de qualquer compra de adubo. A orientação evitava gastar com insumo que a terra talvez nem precisasse. Como a pesquisa só rende quando vira prática de campo, o desafio do país nunca foi apenas produzir conhecimento, e sim fazê-lo circular entre quem planta.
O que a produtividade ensina a quem gerencia um negócio?
Quem olha a lavoura com olhos de gestor percebe que o ganho de produtividade segue a lógica de qualquer empresa: medir, testar em pequena escala, corrigir e só então ampliar. Na leitura de Alfredo Moreira Filho, planejar e acompanhar resultados com método costuma pesar mais do que a pressa de crescer, e isso vale tanto para a safra quanto para um negócio em expansão.
Em uma propriedade que adota a análise de solo, o registro das safras e a comparação entre talhões, os números passam a orientar o que plantar e onde investir. Uma lavoura é mais produtiva só porque a semente é melhor? Nem sempre. O ganho também depende de comparar áreas vizinhas com o mesmo manejo, de anotar o que mudou de um ano para outro e de ajustar a adubação à resposta de cada talhão, sem apostar tudo numa única decisão.
Quais limites a produtividade ainda enfrenta?
Produzir mais por hectare não resolve todos os problemas do campo. O custo dos insumos, a falta de crédito adequado, a logística precária para escoar a safra e as mudanças do clima continuam pressionando o produtor, especialmente o pequeno. Em regiões onde a assistência técnica é escassa, parte do conhecimento disponível simplesmente não chega, e a diferença entre quem acessa a técnica e quem não acessa tende a crescer com o tempo.
Há ainda o cuidado ambiental. A pesquisa que aumenta o rendimento da terra já aberta ajuda a reduzir a pressão por novas áreas, mas isso só ocorre quando o produtor tem acesso à técnica, ao financiamento e a um mercado que absorva a produção. No entendimento de Alfredo Moreira Filho, o avanço técnico precisa caminhar junto com planejamento e responsabilidade, ou o ganho de hoje vira problema amanhã.
Osvaldo, aliás, passou a cultivar o hábito de anotar, ao fim de cada colheita, o que a terra devolveu e o que ficou a dever. O caderno amassado virou o seu principal instrumento de decisão para a safra seguinte, mais confiável que a memória e mais barato que qualquer consultoria. Em muitas propriedades pequenas, é esse tipo de registro simples que permite aproveitar a pesquisa com segurança.












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