Os segredos por trás da tecnologia do mercado autônomo de Curitiba

O primeiro mercado autônomo da América Latina fica em Curitiba, na capital paranaense. Inaugurado em novembro, com o emprego de câmeras e sensores que monitoram as compras e automatizam o processo de pagamento dos clientes, o sistema implementado no Muffato Go, no bairro Água Verde, tem atraído a curiosidade dos consumidores que procuram entender o funcionamento da tecnologia e seu impacto nos hábitos de compra.

O mercado funciona tal qual um ambiente virtual de monitoramento: são centenas de câmeras que acompanham a movimentação das pessoas dentro do espaço de compras, enquanto sensores nas prateleiras controlam o estoque de produtos por pesos e medidas. Após o consumidor preencher os dados cadastrais e validar uma forma de pagamento no aplicativo do Muffato Go, um QR code aparece na tela para liberar a catraca e dar acesso ao supermercado.

Uma vez dentro do ambiente de compras, o cliente pode passear pelos corredores do mercado e escolher seus produtos com calma e tranquilidade. Seguindo as normas da LGPD, a privacidade é garantida pela tecnologia: o usuário se torna uma espécie de “avatar” para o sistema, enquanto a tecnologia soma os valores dos produtos retirados das prateleiras.

Como o ambiente é todo controlado, o usuário pode fazer as comprar com as tradicionais cestinhas de mercado, ou pode simplesmente pegar um item e colocar no bolso – o sistema reconhecerá o produto e cobrará normalmente do “avatar” autenticado na entrada. Da mesma forma, o cliente pode desistir de uma compra e devolver um item em uma prateleira qualquer, que a inteligência reconhecerá a ação e não cobrará pelo produto. Ao deixar o ambiente de compras, o aplicativo do mercado informa o encerramento da experiência e processa automaticamente a cobrança no cartão escolhido pelo usuário.

O objetivo de implementar esse sistema inteligente na jornada de compras do mercado está, primeiramente, em oferecer uma melhor experiência aos clientes – com mais comodidade, segurança e menos tempo perdido em filas. Em seguida, há o entendimento de que profissionais mais qualificados são contratados para dar suporte a todo sistema, substituindo tarefas pouco inteligentes por funções mais humanas (como o atendimento presencial de funcionários para sanar dúvidas, por exemplo). E, por fim, a inteligência artificial e o machine learning utilizados no mercado geram dados sobre hábitos de consumo e perfis de consumidores da região – o que “alimenta” a cadeia produtiva, gerando (potencialmente) mais lucros e até mesmo evitando perdas e desperdícios.

Para conhecer mais a história dessa tecnologia, o GazzConecta conversou com o engenheiro de gestão industrial José Maria Duarte, gerente de operações da empresa portuguesa Sensei, que fechou parceria com o Grupo Muffato para trazer esse sistema inteligente de mercado de Lisboa para Curitiba.

Como surgiu a proposta de mercado autônomo? A partir de qual dor a tecnologia foi desenvolvida?

A loja autônoma surgiu para resolver um grande problema, especialmente nos mercados de alimentos, que era a questão das filas. E a partir das filas surgiu a necessidade de criar uma experiência sem fricção.

Percebemos, após várias análises, que os varejistas já trabalhavam com experiências quase perfeitas do momento em que o cliente entrava na loja (da comunicação aos corredores mais largos). Porém, havia algo que não estava sendo resolvido ao final da experiência – que era a questão das filas.

Depois, começamos a testar outras coisas. A loja autônoma resolve outros problemas como, por exemplo, a falta de estoque nas prateleiras. Aqui, conseguimos controlar o estoque em tempo real, atendendo a outra dor dos clientes que se frustravam ao não encontrar o produto que queriam nas prateleiras.

Qual é o histórico do desenvolvimento dessa tecnologia até o modelo que se tem hoje?

A Sensei surgiu em 2017, na esteira do crescimento das lojas autônomas da Amazon Go nos Estados Unidos, que validou o modelo no mercado. De 2017 a 2021, a Sensei trabalhou no desenvolvimento de todos os componentes, num processo bastante gradual e complexo até chegar a um modelo que poderia ser colocado em produção – desde testar as melhoras câmeras, os melhores sensores de prateleiras e o melhor layout, até estudar os comportamentos das pessoas dentro da loja (entrando em grupo, com criança no colo, com carrinho etc). Foi preciso estudar todos os casos possíveis nesse tipo de loja para estarmos confortáveis para abrirmos a primeira em Lisboa, em 2021.

Quais são os desafios de um mercado autônomo frente ao comportamento humano?

O primeiro é perceber quem são as pessoas dentro da loja e como distinguí-las. E esse componente nós chamamos de tracker, que garante que do momento que o cliente entra na loja, ele está sendo seguido em todos os cantos da loja (sem pontos cegos).

Isso é muito importante: garantir que sabemos exatamente e individualmente quem são as pessoas. Não é por reconhecimento facial, nem por conhecimento da fisionomia, mas sim pelas coordenadas do cliente dentro da loja. Dessa forma, conseguimos distinguir todos os clientes individualmente.

O segundo ponto é perceber quais são os produtos que o cliente está retirando. Nesse caso, temos dois componentes: os sensores das prateleiras nos dão uma ideia de movimento e de variação de peso, e essa ação aciona as câmeras que vão detectar qual produto foi retirado. E só é possível as câmeras detectarem qual é o produto porque elas “conhecem” perfeitamente todos os produtos da loja: há um processo de treinamento, no qual ensinamos para as câmeras e para o sistema quais são os produtos.

Assim então garantimos que temos um circuito fechado: sensores, câmeras que reconhecem os produtos e câmeras que seguem as pessoas.

Como foi o processo para trazer essa tecnologia para o Brasil?

O processo começou há pouco mais de dois anos, quando o Vasco Portugal, CEO da Sensei, conheceu o Everton Muffato, diretor do Grupo Muffato, em uma feira em Nova York. Ali começou uma aproximação, que acabou se consolidando ao abrirmos a primeira loja autônoma em Lisboa em maio de 2021, quando ficou claro que o que estávamos fazendo não era um laboratório ou uma experiência e sim uma coisa séria. Então, no final de 2021, fechamos o projeto e começamos a trabalhar concretamente para trazer a tecnologia, formar parcerias locais e estudar o mercado e a região.

Além de facilitar a vida do consumidor, o mercado autônomo traz também novas possibilidades de negócios a partir dos dados gerados por essa tecnologia?

Sem dúvida! Os dados que esta loja é capaz de gerar são infinitos. Conseguimos saber tudo sobre o comportamento dos clientes; exceto a cara e o nome do cliente, que são de responsabilidade do Grupo Muffato. Mas de maneira agregada, sabemos onde os consumidores passam mais tempo na loja, onde estão os “pontos de calor”, quais são os produtos mais vendidos e quais são os itens que as pessoas pegam, olham e por alguma razão não levam.

Muitas empresas do setor alimentício – de escala global – gastam bilhões de dólares em estudos e laboratórios para saber como o cliente se comporta. Este mercado autônomo é um laboratório real, com dados agregados de comportamentos, o que tem um valor enorme para varejistas. Assim, temos a solução para o cliente final e temos também o segmento de dados para varejistas; há muitos detalhes que conseguimos extrair, de tendências de consumo a design de produtos.